CEIFEIRO DE SONHOS – Walter Parente

Juliano olhava impacientemente para a tia Adelaide, que começara um rosário de recomendações havia cerca de meia hora.
– Escute bem, menino! Antes de você sair de Itabuna, a sua mãe me fez prometer, pelas 5 Chagas de Cristo, que eu ia cuidar de você, que eu não ia deixar você enveredar pelos caminhos sem volta que quase todos os meninos desta comunidade são obrigados a caminhar. Portanto, não estrague esta oportunidade que a Divina Providência me ajudou a conseguir pra você!
– Tá certo, tia; mas a senhora sabe muito bem que não era esse trabalho que eu esperava encontrar aqui, no Rio de Janeiro. O que eu queria era trabalhar num hotel ou até mesmo num restaurante, onde eu pudesse fazer carreira; mas nunca de empregado doméstico.
– Não seja mal agradecido, menino! Você tem que se preocupar é em ganhar logo algum dinheiro para poder ajudar a sua mãe na criação de seus irmãos. Depois que a coitada se separou daquele traste, que é seu pai, ela tem comido o pão que o diabo amassou. É por isso que nunca quis me casar. Os homens são todos farinha do mesmo saco. Quando espicham um olhar mavioso pra uma mulher, é porque tão querendo alguma coisa, normalmente que ela arreganhe as pernas. É difícil encontrar um homem que preste!
A parte final do sermão soou mais como um desabafo. Adelaide havia deixado de fitar o sobrinho. O olhar, de repente, se tornou vago e sem direção, parecendo mirar coisas distanciadas pelo tempo.

Juliano estava prestes a completar 19 anos. Fazia duas semanas que chegara ao Rio de Janeiro, trazido pela tia. Sentia-se encantado com a paisagem urbana vista através da janela do ônibus no momento em que adentrava a cidade maravilhosa. A Linha Vermelha, o movimento na avenida Brasil, a igreja da Penha e tudo que os olhos podiam prescrutar. Não gostou do que viu ao chegar à casa da tia. Um pequeno casebre numa viela, transitada apenas por motos e bicicletas, na comunidade da Maré.
Perto de completar 13 anos, Juliano passou a ajudar a mãe. Foi quando ela foi abandonada pelo marido, que, sem emprego certo, vivia de fazer bicos como encanador. Do pouco dinheiro que ganhava, ele destinava a maior parte a duas mulheres: a cachaça e Tonha, uma vendedora de peixe na feira livre, com quem resolveu se juntar de vez, deixando a esposa na condição de única provedora do sustento dos 5 filhos, o que veio obrigá-la a aumentar a carga de trabalho. Reconhecida como boa no ofício, clientes não lhe faltaram. Ao filho coube a tarefa de ir buscar a roupa suja e de fazer a entrega da roupa engomada numa velha bicicleta cargueira.
Foi logo no início das atividades de entregador que o menino conheceu dona Inês, uma senhora de 78 anos, viúva de um dos maiores produtores de Cacau da região. Ela havia residido em Paris por quase 30 anos. O esposo a visitava a cada dois meses. Mas veio-lhe a viuvez, e, atendendo ao clamor de seu único filho, decidiu-se por voltar de vez à terra natal. O filho era médico, mas dedicava a maior parte do tempo na administração dos negócios da família.
Dona Inês era uma das novas clientes de Neide. Sempre que Juliano chegava à sua casa, ela pedia à empregada que lhe preparasse uma merenda. Certa vez, quando ele aplacava a fome, a dona da casa conversava ao telefone em francês. Ele ficou extasiado; e, sem se conter, confessou seu encantamento à velha senhora. E, nas vezes que ali voltou, sempre pedia a ela que dissesse alguma coisa no idioma napoleônico. Três meses depois, Juliano estava recebendo, além do lanche, aulas de francês. Dois anos depois, vendo o grande progresso do jovem na língua francesa e seu grande interesse pelo fala dos que moram do outro lado do Canal da Mancha, ela se dispôs a lhe ensinar também o inglês.
Juliano tinha boa aparência. Era esbelto, de porte médio e de pele moreno-clara; o preto dos cabelos contrastava com o verde claro dos olhos; o rosto era ligeiramente quadrado, mas a boca com os lábios simétricos e o nariz afilado lhe davam uma aparência ligeiramente andrógina, o que lhe conferia certa candura. As jovens viviam a lhe perturbar, atraídas pelos seus encantos.
Achando que sua proficiência nos idiomas inglês e francês já dava para o gasto, Juliano passou a acalentar o sonho de vir a trabalhar numa rede de hotel internacional. Sugestão essa dada por dona Inês. Ir para Salvador passou a ser uma obsessão. Mas, temerosa, a mãe se mostrava renitente em não o deixar partir. Sofria ela só em pensar no filho morando sozinho na capital, cujos noticiários apontavam-na com frequência como uma das mais perigosas do país. Mas a vinda de sua irmã Adelaide a Itabuna trouxe-lhe a solução para o angustiante conflito. “Foi uma providência divina!”, exclamava ela para si mesma.
– Pode ficar tranquila, minha irmã, que eu vou cuidar do Juliano como fosse meu filho. Ele será o filho que não tive – assegurou Adelaide à aflita irmã.
Adelaide conseguiu com o amigo e colega Pedro, o governante da mansão em que trabalhava havia mais de dez anos, o emprego de auxiliar de zeladoria para o sobrinho. A remuneração era de um 1,5 salário mínimo, mas tinha direito à alimentação e à moradia de segunda a sábado. Atrás da mansão, havia as instalações dos empregados, formadas por um pequeno prédio com 10 pequenos quartos e dois banheiros coletivos. Os empregados tinham, mediante um sistema de revezamento, o direito a um dia de folga na semana. “Isso é só enquanto você consegue outro emprego. Você tem boa aparência e é inteligente, não será difícil você encontrar uma ocupação melhor. O importante é que você não fique na comunidade sem ter o que fazer, sujeito a qualquer momento ser atingido por uma bala perdida. Você terminou o segundo grau, mas vai continuar estudando pra ser um doutor!”
A mansão ficava no Jardim Botânico. Ocupava uma área de 16.000 metros quadrados. Apesar da grande extensão do terreno, a casa tinha dois pavimentos. Em seu entorno, se destacavam duas piscinas grandes, um reduzido campo de futebol e um exuberante jardim. O corpo de trabalhadores domésticos era formado por 9 pessoas, incluindo-se o motorista e os dois seguranças. Com a chegada de Juliano, o número chegou a 10.
O renomado advogado Romualdo Moreira Peixoto era o proprietário da mansão. Estava prestes a completar 70 anos. Casara-se duas vezes. Da primeira esposa, Esmeralda, que esteve a seu lado por 31 anos, divorciou-se aos 63 anos. Desse casamento, veio uma filha, Letícia. Cerca de 10 meses após o divórcio, ele voltou a se casar. Desta vez, em regime de separação total de bens, com a bela Renata, que acabara de completar 25 anos.
É invisível aos patrões o empregado doméstico valorizado apenas pelo que possa representar em termos de utilidade laboral. Naquela mansão, os trabalhadores faziam parte da mobília; de modo que, involuntariamente, tomavam conhecimento de quase toda as vicissitudes que permeavam a convivência da família patronal. Adelaide, pelo longo tempo de mansão, seria de grande valor informativo para qualquer biógrafo que se dispusesse a escrever a história do dr. Romualdo e de sua família. Certa noite, quando ela se recolheu ao seu pequeno quarto após o término de suas atividades diárias, chamou o sobrinho para conversar e repassar-lhe, por assim dizer, algumas informações.
“O dr. Romualdo é uma cobra, e a Letícia parece ter puxado a ruindade do velhaco. Nenhum dos dois prestam. A dona Renata é uma pobre coitada. É um bibelô do marido. Ele gosta de exibir ela pros amigos. Na verdade, ela é uma vítima dele e da mãe dela, que é uma perua safada e interesseira. Ela praticamente obrigou a filha a se casar com o dr. Romualdo. Ele conheceu a dona Renata no dia em que ela apareceu no escritório dele para pedir emprego. Ela também é advogada, mas ele não deixa ela trabalhar. Ele vive a dizer que se apaixonou no momento em que botou os olhos nela. E isso parece que é verdade, porque foi, nesse tempo, que ele se separou da dona Esmeralda. Me disseram que o desgraçado ainda fez graça no momento que assinou os papéis da separação, dizendo que estava ficando mais pobre porque acabava de perder uma esmeralda. Mas a dona Renata tem culpa. Ela não era obrigada a fazer a vontade da mãe dela. A verdade é que, nas festas e nas solenidades, lá está ela, do lado dele, elegantemente vestida e com um sorriso azedo no rosto.”
A preeminência do dr. Romualdo não se devia a uma eficiente atuação na defesa convencional dos interesses de quem a contratava, mas pelo seu acesso aos gabinetes das autoridades judiciárias em que a honra é sobrepujada pelo cobre.
Naquele mês de junho de 2022, ele andava feliz. No dia 23, um dia de quinta-feira, completaria 70 anos bem vividos. Havia ainda um grande motivo para comemoração: estava prestes a assumir a cadeira de senador da República, na condição de primeiro suplente do titular, que estava se descompatibilizando do cargo para concorrer ao governo do Estado.
Para comemorar o aniversário, o advogado resolveu dar uma grande festa na mansão. Achou melhor que fosse no sábado, e não na quinta-feira.
Juliano, na manhã do dia anterior ao da festa, cuidava das piscinas. Ao iniciar a limpeza da primeira, espantou-se ao ouvir a indagação de Letícia, quase aos gritos:
– Imbecil, tu acha que esta é a hora apropriada pra se fazer a limpeza das piscinas?!
– Me desculpe senhora! É porque o seu Pedro mandou que eu primeiro varresse a parte do jardim em que vão ser instalados o palco e a pista de dança.
– Ô paraíba, pois vê se trata de trabalhar rápido! – Ordenou Letícia, já deitada em uma das espreguiçadeiras.
Voltando a se concentrar no que fazia, Juliano pensou: “Oh, criatura imbecil! A tia Adelaide tá certa. Ela é uma cobra!”
Fazia 12 dias que ele ali trabalhava. Nesse tempo, viu Letícia quase todos os dias, sempre a distância. Por três vezes, ela estava tomando bando de sol na companhia de uma amiga à beira da piscina; nas outras vezes, ao sair e ao chegar à casa. Não a achou bonita, nem feia; apenas uma garota comum, como muitas que viviam a lhe espichar os olhos em Itabuna. No primeiro dia em que a viu, um pensamento lhe veio à mente: “Se ela se cassasse comigo, eu daria adeus à pobreza”. Depois de pensar um pouco, concluiu: “Se eu me meter com ela, o que eu vou conseguir é perder a desgraça deste emprego e ter de aguentar as reclamações da tia Adelaide pro resto da vida!”
O dr. Romualdo solicitou a Pedro que adotasse as providências para que todos os empregados da casa estivessem trajando as mesmas vestimentas do pessoal do buffet contratado. Providência, a ver do patrão, que viria facilitar aos convidados na identificação dos serviçais.
Depois de quase um mês na mansão, em conversa com a tia antes de conciliarem o sono, Juliano disse:
– A dona Renata é muito estranha. É calada. Só frequenta a piscina para ler. Quase não fala com ninguém. Só sai de casa pra acompanhar o marido a algum lugar, ou com o motorista, pra fazer compra no shopping. Ela muito bonita, mas não dá um sorriso. Parece que vive em outro mundo.
– Meu filho, ela tá tendo o que quis ter, ou melhor, o que a mãe dela escolheu pra ela. Como você mesmo já pôde ver, a desgraçada, ao contrário da filha, está sempre por aqui, com um sorriso de boca a boca. Também pudera, a mesada que o genro dá pra ela todos meses não deve ser pouca.
Renata nunca chegou a conhecer o pai. Estudiosa, ingressou no curso de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERG) logo na primeira vez que fez o vestibular. Até o seu casamento, a mãe vivia de um pequeno salão de beleza que possuía no subsolo de um velho edifício na rua Uruguaiana.
A noite da festa havia chegado. O velho Pedro procurava checar se tudo estava em ordem. Conversava repetidas vezes com o pessoal do buffet e com os empregados da casa. Juliano e dois colegas, à semelhança dos garçons, trajavam uma camisa social branca, gravata borboleta e colete preto, da mesma cor da calça social e do sapato de couro e de cadarço. A tarefa que cabia aos três empregados era apenas a de circular discretamente entre os convidados a fim de satisfazê-los com celeridade em suas demandas, especialmente aquelas que não estavam sendo atendidas a contento pelos garçons.
Ao circular entre os grupos de convidados, Juliano punha-se a observar cada detalhe. Era como se estivesse por trás das câmeras que iluminavam aquele espetáculo encenado por uma turba de atores medíocres, cujo enredo era a hipocrisia e a falsidade. O assunto predominante era o casal anfitrião, cuja síntese, se posta na boca de um dos personagens, poderia ficar assim: “O dr. Romualdo não passa de um safado, mentiroso e exibicionista; um sujeito oportunista que acha que pode comprar o que bem quiser, como fez com a atual esposa, que tem idade para ser sua neta. Ela que é uma desmilinguida oportunista, que se mantem sempre calada por um único motivo: não dizer bobagens.” Um dos convidados se mostrou ainda mais cáustico ao afirmar que, como senador, o seu amigo Romualdo aumentaria o ciclo de amizade nos tribunais superiores e, por consequência, o portfólio de clientes e o volume de sua conta bancária.
Um fato chamou ainda mais a atenção de Juliano. Ele viu o patrão, ladeado pela esposa, sentado a uma das inúmeras mesas redondas, conversando animadamente com um casal. Apesar de a toalha branca sobre a mesa estar quase beijando a grama, ele pôde ver que o convidado procurava roçar o sapato na perna de Renata. Viu que que ela, apreensiva, procurava se esquivar, mudando a perna de lugar. De repente ela se levantou, mas o marido insistiu para que ela voltasse a sentar-se.
– Com licença, senhora! Uma convidada está passando mal no toalete e pediu que a senhora fosse até lá – Juliano falou em um tom de voz educado, mas audível a todos que estavam à mesa.
Ao levantar-se Renata olhou nos olhos do empregado e, sem abrir a boca, dirigiu-se aos banheiros próximos às piscinas e adentrou o que se destinava às mulheres. Juliano a seguiu à certa distância e pôs-se a esperá-la bem próximo à porta.
– Onde está a convidada? – indagou ela, ao sair.
– Desculpe-me, senhora. Na verdade, foi uma ideia que me veio à cabeça, para livrar a senhora daquele miserável atrevido.
Juliano viu que ela desviara o olhar para o chão.
– Você é o empregado novato, o sobrinho da Adelaide? – indagou ela, depois de voltar a encarar o empregado.
– Sim, senhora.
Ela esticou os braços e segurou as duas mãos do empregado. Sorrindo e olhando-o nos olhos, perguntou:
– Qual é o seu nome?
– Juliano.
– Muito obrigado, Juliano!
O sorriso branco, os olhos castanhos e amendoados e as palavras ternas da patroa afetaram Juliano. Ele, magnetizado, não conseguia deixar de acompanhá-la com os olhos enquanto ela se dirigia rumo ao interior da casa.
Quando analisou a patroa, em conversa com a tia, Juliano o fez através da objetividade precipitada dos olhos, que veem apenas o que é superficial. Não viu ele que o silêncio pode ser o grito dos infelizes; que aquela bela mansão, para Renata, não passava de um chiqueiro de porco em que ela era a lama fuçada. Ele também não se dispôs a saber que a única razão que a levava a beber daquele vinho azedo era apenas para garantir o bem-estar da mãe.
Cerca de meia hora depois, Renata voltou a estar ao lado do marido, que mudara de mesa. Agora, ele conversava com um empresário italiano, que viera ao Rio para tratar de um processo de licitação de compra de vagões de trem, promovido pelo SuperVia. O escritório do dr. Romualdo havia sido contratado para assessorar a empresa estrangeira nos trâmites legais. Ao ver Juliano, o patrão ergueu o braço, chamando-o.
– Chame um garçom, para ver se ele entende que tipo de bebida este meu amigo está querendo.
Juliano viu que o convidado procura se comunicar mesclando o italiano com o português, o que só fazia dificultar o entendimento. Expressando-se em inglês, o jovem empregado pediu que o senhor lhe dissesse o que desejava beber. O espanto dos patrões foi incontido. Pela primeira vez, Juliano viu o dr. Romualdo com um sorriso no rosto. Renata o olhava com profunda admiração. Vendo o impacto que causara, ele resolveu impressionar a patroa. E, no idioma francês, disse: “Como o senhor é italiano, acho que seria melhor que falássemos em francês.” Após trocarem o inglês pelo francês, o italiano foi servido com a caipirinha tão desejada.
Esse acontecimento impactou a patroa mais do que Juliana havia esperado. A felicidade dela ganhou relevo por saber que o empregado era de origem humilde, mas que, diferentemente dela, certamente sairia daquela casa voando com as próprias asas; seria bem sucedido em alguma atividade e, por certo, encontraria uma boa moça, com quem viveria um amor verdadeiro e recíproco.
Ao retornar a transitar entre as mesas, Juliano se aproximou de um grupo de jovens que conversavam e riam alto. Letícia, movida pelo álcool, era a mais falante. Ao reconhecer o empregado, gritou:
– Ô paraíba imprestável, vem cá!
Quando ele se achegou, ela ordenou, com desdém, que ele fosse atrás de um garçom que viesse servir uma rodada de champanhe a seu grupo de amigos. Exigiu que ele fosse rápido, sob pena de ser despedido. O grupo se divertia com a atitude de Letícia. Inexplicavelmente Juliano permanecia estático, fitando a jovem patroa. “Vai logo, paraíba!”, gritou um dos jovens. Ainda sob os efeitos do impacto que havia causado aos patrões, ele disse em inglês: “Antes de eu ir atrás do garçom, eu tenho de contar as pessoas, para saber o número de taças que ele terá de trazer.” Em seguida, já falando francês, quis saber se alguém tinha preferência por algum tipo de champanhe. Parecia que todos haviam sido atingidos por um gás paralisante. Apenas uma das jovens saiu do meio do grupo e foi-se pôr bem à frente do empregado.
– Caramba, este cara deve ser Apolo, o deus da beleza! – ao falar, a jovem emendou um demorado beijo na boca de Juliano, que, após se refazer daquela situação inusitada, a empurrou com força.
Ao dar meia volta para sair dali, viu que Renata, de onde estava, havia presenciado toda a cena.
Na manhã do segundo dia após a festa, ao passar perto da piscina, foi chamado por Letícia. Estranhou o seu ar glacial e a ternura posta nas palavras; e, mais ainda, o que ela lhe pediu.
– Por favor, passe este protetor em minhas costas – pediu ela, passando-lhe um tubo de creme.
– Me desculpe, mas é que tenho muito o que fazer. E se o seu Pedro…
– Deixe que, do Pedro, eu cuido. Ande, comece a fazer o que eu pedi! – disse ela, interrompendo o que ele falava, ao tempo que recostava a testa nos joelhos, expondo-lhe todo o dorso.
Renata assistira à cena da varanda de seu quarto, que ficava no pavimento superior.
Nos dias que se seguiram, a cena e a plateia se repetiram. Mas, a cada dia, Letícia se mostrava mais ousada, até que, num ato aparentemente impulsivo, ela beijou-lhe a boca.
– Não faça isso, dona Letícia!
– Eu quero você, Juliano.
– Não diga essa besteira! Se o dr. Romualdo vier saber que ando me metendo com a senhora, ele vai me mandar embora ou então fazer coisa pior. Por favor, me deixe em paz! – desabafou Juliano, ao tempo que saía apressadamente, com uma tesoura de poda à mão.
Juliano ainda pensando na atitude inconsequente de Letícia, fazia uma poda de formação numa exuberante bougainville; de modo que não percebeu a chegada de Renata.
– Você resolveu acrescentar às suas tarefas diárias o namoro com a filhinha do patrão? Tome cuidado, rapaz!
Ao ouvir aquela indagação carregada de ironia, ele se virou. Ficou sem jeito ao ver o rosto contraído da patroa.
– Eu não fiz nada, dona Renata. Ela é que deu pra me obrigar a passar aquele maldito creme nas costas dela.
– E o beijo, foi obrigado? – voltou ela a ironizar.
– Não! Foi roubado! – respondeu secamente Juliano, depois de largar a tesoura ao chão e se aproximar acentuadamente da interlocutora. Após fitar os olhos dela por um instante, puxou-lhe a cabeça com as duas mãos e beijou-lhe a boca.
O corpo paralisado pelo cérebro adormecido diante de tamanha ousadia, Renata se deixou ser governada pela desejosa e carente alma, de modo que não opôs resistência ao beijo. Inconscientemente, permitiu-se saborear aquele sabor agridoce de fruta ainda em maturação. De repente o cérebro voltou ao comando, tangendo alma para sua secreta caverna. Juliano sentiu na face o forte impacto da mão espalmada da patroa.
A folhagem abundante dos galhos da bougainville serviu de anteparo aos olhos de um eventual transeunte da casa que, por ventura, estivesse nas imediações da cena.
– Me respeite, seu cretino! Pegue suas coisas e dê o fora de minha casa! – ordenou ela, afastando-se a passo apressado.
Juliano dirigiu-se ao quarto, que dividia com a tia. Pegou uma bolsa e pôs-se a colocar a roupa. Estava aflito. Sofria com a estupidez que acabara de cometer. Dava razão à patroa. Realmente ele havia sido um cretino. Um cretino igualzinho ao safado do convidado que a havia molestado na festa.
– Me perdoe, Juliano!
Ao voltar-se para a porta, viu Renata parada na soleira. O castanho dos olhos amendoados cedera lugar ao vermelho. Havia, no seu rosto quase angelical, vestígios de lágrimas escorridas.
– Eu é que devo pedir perdão à senhora.
– Por favor, não me chame de senhora. Me chame apenas de Renata.
– Mas ninguém desta casa vai entender se me virem tratando a senhora de você.
– Depois do que aconteceu, você vai ter que sair desta casa. Eu vou pedir a uma amiga, que é muito influente, que consiga um emprego em algum lugar pra você.
– Não precisa se preocupar, dona Renata. Eu já tenho onde trabalhar. Logo que cheguei ao Rio, recebi uma carta da dona Inês. Ela é uma boa senhora lá de Itabuna. Foi ela que me ensinou a falar o inglês e o francês. Ela me disse que o filho, a pedido dela, conseguiu um emprego pra mim aqui no Rio, na avenida Rio Branco, perto da Presidente Vargas, no escritório de uma empresa de exportação de açúcar e melaço. Eu não sei o valor do salário, por que não cheguei a ir até lá, mas deve ser maior do que eu ganho aqui.
– E por que você ainda foi assumir esse emprego?
– Porque não quis sair de perto da senhora, quero dizer, de você. Eu me apaixonei por você logo nos primeiros dias que cheguei aqui.
Renata não se sentiu à vontade ao ouvir aquela inesperada declaração. Dois argumentos saíram quase de forma automática de sua boca:
– Mas eu sou casada. E não se esqueça que soa bem mais velha que você, que ainda é um menino. Quantos anos você tem?
– 20! E não sou mais menino! – respondeu secamente Juliano.
– Pois eu tenho 12 anos a mais que você.
Juliano chegou bem perto de Renata e segurou-lhe a mão, fazendo que saísse da soleira e ingressasse no quarto. Voltou a lhe beijar demoradamente. Desta vez, ao separarem os lábios, não lhe veio, em retribuição, a mão espalmada da patroa; o que lhe veio foi mais um demorado beijo.
Para que um longo caminho venha ser percorrido até o final, será necessário que se deixe para trás o baú das cosas pesadas e que se leve apenas o que é leve. Depois de uma semana de conversa, Juliano e Renata julgaram encontrar o que seria o melhor caminho a trilhar. Ele assumiria o emprego na empresa de exportação e, de imediato, procuraria um pequeno apartamento, que seria comprado e montado com a pequena reserva financeira que ela conseguira fazer. Depois disso, ela pediria o divórcio e, naquele mesmo instante, deixaria a mansão, e passariam a morar juntos. Ela prometeu ao inseguro Juliano que, daquela vez, não cederia à vontade da mãe.
“A jovem advogada Renata Nunes Peixoto, de 32 anos, foi assassinada na manhã desta terça-feira pelo marido e senador da República, Romualdo Pereira Peixoto, de 70 anos. Foram dois tiros de revólver dados nas costas da vítima, no quarto do casal na mansão onde moravam. Ele, que também é advogado, assumiu a autoria do crime e…”
Foi essa a principal notícia veiculada pelos meios comunicação do país na manhã da primeira terça-feira de setembro de 2022.

OBS: Dos 101 trabalhos literários apresentados no II Concurso de Contos, História e Poesias promovido pela ANFIP, o CEIFEIRO DE SONHOS de autoria do Colega Walter ficou entre os 10 melhores trabalhos apresentado, recebendo MENSÃO HONROSA .